Capítulo 16 de 24
Substituição e rearmonização
Trocar acordes preservando a função: relativos, equivalências do dominante, diminutos intercambiáveis e as várias faces da subdominante menor.
Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.
Relativos: três acordes, uma função
Acordes que compartilham a maior parte das notas podem se substituir sem alterar a função. O caso mais direto são os relativos da tônica: em Dó maior, Cmaj7 (Dó, Mi, Sol, Si), Am7 (Lá, Dó, Mi, Sol) e Em7 (Mi, Sol, Si, Ré) têm duas ou três notas em comum entre si, e os três exercem função de tônica. Trocar I7M por VIm7 ou IIIm7 muda a cor sem mudar o lugar funcional do acorde.
A mesma lógica vale nas outras famílias: Fmaj7 (IV) e Dm7 (II) são relativos na função subdominante. De modo geral, todo acorde m7 pode ser lido como relativo do acorde maior com sexta uma terça menor acima — Am7 e C6, por exemplo, contêm exatamente as mesmas quatro notas.
Turnaround original
A volta clássica I–VI–II–V.
Mesma volta com o outro relativo
Em7 substitui Am7: a função de tônica se mantém, o baixo desenha outro caminho.
m7 e o relativo maior com sexta
Am7 e C6 são o mesmo conjunto de notas (Lá, Dó, Mi, Sol) com baixos diferentes — ouça a equivalência.
Equivalências do dominante
O V7 é o acorde com mais disfarces. Além do substituto de trítono (subV7), duas equivalências estruturais merecem atenção. Primeira: um m7(b5) construído sobre a terça do dominante contém as notas de um V9 sem fundamental — Bm7(b5) (Si, Ré, Fá, Lá) é G9 sem o Sol. Segunda: um m6 construído sobre a quinta do dominante produz o mesmo conjunto — Dm6 (Ré, Fá, Lá, Si) também equivale a G9 sem fundamental.
Isso explica por que tantas partituras de bossa escrevem Dm6 ou Bm7(b5) onde a análise esperaria G7: são o mesmo som com o baixo em outra nota. Há ainda a troca do par II–V alterado pelo acorde do VII grau: em contexto menor, Bm7(b5) pode condensar sozinho a preparação que Dm7(b5) → G7 faria em dois acordes.
V7 substituído por m6 sobre a quinta
Dm6 tem as notas de G9 sem o Sol: a preparação dominante acontece com o baixo parado em Ré.
V7 substituído por m7(b5) sobre a terça
Bm7(b5) = G9 sem fundamental. A resolução em Cmaj7 confirma a função dominante.
Diminutos entre si e as faces da subdominante menor
Pela simetria vista no capítulo anterior, qualquer dim7 pode ser reescrito a partir de qualquer uma de suas quatro notas: Cdim7, Ebdim7, Gbdim7 e Adim7 são intercambiáveis. Na rearmonização, isso permite escolher o baixo que melhor conduz à próxima harmonia — o acorde "por cima" não muda.
Já a subdominante menor oferece um leque de seis formas equivalentes para o mesmo momento funcional: IVm7, IVm6, IIm7(b5), bVI7M, bVII7 e bII7M (todas contendo a b6 do tom). Rearmonizar é, muitas vezes, apenas escolher outra face da mesma função: onde a melodia permitir, Fm7 pode virar Abmaj7, Bb7 ou Dbmaj7 sem que a frase perca o sentido.
Regra de ouro da rearmonização: a melodia manda. Antes de trocar um acorde, verifique se a nota da melodia continua sendo uma nota do acorde ou uma tensão disponível no substituto.
Mesma frase, duas subdominantes menores
Fm7 e Bb7 são faces da mesma função: toque as duas resoluções em sequência e compare a cor.
Como praticar
Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.
- 1
Toque o turnaround I-VI-II-V e reescreva-o trocando VI por III (e depois IV/II por seus relativos). Ouça a mudança de baixo com a função intacta.
I7MIIIm7IIm7V7 - 2
Substitua o V7 por um m6 sobre a 5ª (Dm6) e por um m7b5 sobre a 3ª (Bm7b5) — os dois são G9 sem fundamental.
IIm7V7 (Dm6)I7M - 3
Rearmonize uma frase trocando a subdominante menor por outra face (Fm7 → Bb7 → Dbmaj7), sempre conferindo se a melodia continua cabendo.
IVm7I7MbVII7I7M
Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →