Capítulo 12 de 24
Escalas para o dominante
Um mesmo V7 aceita várias escalas — mixolídio, lídio b7, alterada e as simétricas (diminuta e tons inteiros). Trocar a escala muda a cor do dominante sem mudar a função.
Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.
Mixolídio: a escala natural do V7
O dominante é o acorde mais aberto a tensões de todo o campo, e sua escala natural é o mixolídio — a maior com a 7ª menor. Em G7 (V de C), são as notas de Dó começando em Sol: G-A-B-C-D-E-F. Dela saem as tensões diatônicas do dominante: a 9 (A) e a 13 (E). A única nota crítica é a 11 justa (C), que forma 9ª menor com a 3ª (B) e por isso só entra suspendendo a 3ª — virando o G7sus4.
A função dominante mora no trítono (B-F) e não depende da escala escolhida. Isso libera o improvisador: mantendo o trítono, você pode trocar as outras notas por tensões mais fortes, pintando o mesmo V7 de cores diferentes. As próximas escalas são exatamente esse cardápio.
Mixolídio: 9 e 13 disponíveis
O mesmo dominante ganhando 9 e 13 do mixolídio. A função para resolver em C continua idêntica.
Lídio b7: o dominante que não resolve
Quando o dominante não resolve descendo de quinta — o IV7 do blues, o subV7, o bVII7 —, a 4ª justa deixa de incomodar e vira 4ª aumentada: nasce o mixolídio #4, também chamado lídio b7. É o mixolídio com a #11 no lugar da 11 justa. A escala é simétrica no começo (dois tons inteiros) e dá ao dominante um brilho suspenso, sem urgência de resolver.
Ela é a escala do IV7 (D7 no campo de Lá menor melódica), do subV7 (onde a #11 soa mais natural que as alterações do V original) e de qualquer X7 usado como cor estável. Os acordes que ela gera são o 7(9,#11,13) — o dominante "lídio".
IV7 com #11 (lídio b7)
O D7 do 4º grau da melódica de Lá não resolve em Sol — a #11 (Sol#) confirma que ele é cor, não tensão de passagem.
subV7 pede tensão natural
No substituto de trítono, a #11 soa melhor que as alterações típicas do V — é o lídio b7 em ação.
Alterada: tensão máxima para resolver em menor
Quando você quer o dominante mais tenso possível — sobretudo para resolver em acorde menor —, use a escala alterada: o 7º modo da menor melódica. Ela mantém o trítono do V7 e cerca todas as outras notas de alterações: b9, #9, b5 (a mesma nota que #11) e #5 (a mesma que b13). É o dominante que parece querer explodir na tônica.
O acorde-símbolo é o 7alt (por exemplo G7alt), que reúne b9 e #9 sobre o trítono. Na prática da bossa e do jazz, quase todo V7 que cai num acorde menor pode ser tocado alterado. Um parente próximo é o mixolídio b9,b13, vindo do V grau da menor harmônica, com a mesma vocação de resolver em menor.
II-V-i menor com dominante alterado
O G7alt empilha b9 e #9 sobre o trítono. A resolução em Cm7 fica ainda mais faminta.
Alterado também colore a resolução maior
Mesmo indo para o maior, o dominante alterado funciona — só soa mais dramático que o G7 natural.
As simétricas: diminuta e tons inteiros
Duas escalas simétricas fecham o cardápio do dominante. A diminuta (semitom-tom), de oito notas, guarda o trítono e oferece b9, #9 e 13 ao mesmo tempo — é a escala dos dominantes 7(b9), 7(#9) e 7(b9,13), e a mesma que dá origem aos acordes diminutos. Como é construída alternando semitom e tom, ela se repete a cada 3ª menor: um único desenho serve para quatro dominantes.
A de tons inteiros (hexafônica), de seis notas, é feita só de tons inteiros. Ela não tem 5ª justa nem 4ª: no lugar delas ficam a #5 (b13) e a #11. Por isso gera os acordes 7(#5) e 7(#11) — um dominante que "flutua", sem gravidade, muito usado em passagens de sonoridade impressionista. Também é simétrica: dois desenhos cobrem os doze dominantes.
Diminuta: b9 e #9 sobre o V7
As duas tensões que a escala diminuta serve ao dominante. Ambas resolvem lindamente em C.
Tons inteiros: o dominante que flutua
A #5 (Ré#) vem da escala hexafônica — sem 5ª justa, o G7 perde o chão e ganha um ar suspenso antes de resolver.
Como praticar
Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.
- 1
Sobre um G7 parado, toque a escala mixolídia (as notas de C começando em Sol) e improvise usando 9 e 13; depois evite a 11 justa e ouça por quê.
- 2
Toque um V7 resolvendo em menor com a escala alterada (G7alt → Cm7) e sinta as tensões b9, #9 e #5 puxando para a tônica.
IIm7(b5)V7altIm7 - 3
Compare as duas simétricas sobre o mesmo G7: a diminuta (G7b9) e a de tons inteiros (G7#5). Cada uma pinta o dominante de um jeito antes de resolver em C.
Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →