Cadência dominante
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Capítulo 09 de 24

Cadência dominante

O V7 é o motor da harmonia tonal: entenda por que ele pede resolução e como cada grau do campo pode ganhar um dominante próprio.

Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.

Por que o V7 resolve

Todo acorde de sétima da espécie dominante (fundamental, terça maior, quinta justa e sétima menor) carrega um trítono entre a terça e a sétima. Em G7, esse trítono fica entre Si e Fá — um intervalo instável que o ouvido quer ver desfeito. A resolução mais natural move o Si meio tom acima, para Dó, e o Fá meio tom abaixo, para Mi: exatamente a fundamental e a terça de Cmaj7.

Esse movimento V7 → I é a cadência dominante primária, o gesto de conclusão mais forte da música tonal. Quando você analisa uma música e encontra um acorde X7 seguido de um acorde cuja fundamental está uma quarta justa acima (ou quinta abaixo), quase sempre está diante de uma relação dominante–tônica.

Na cifragem analítica usamos algarismos romanos: V7 → I7M no modo maior. O símbolo diz a função, não a nota — assim a mesma análise vale para qualquer tonalidade.

Cadência dominante primária em C

V7
I7M

O trítono Si–Fá de G7 resolve nas notas Dó e Mi de Cmaj7. Ouça a sensação de chegada.

Dominantes secundários: um V7 para cada grau

A lógica do V7 → I pode ser emprestada para dentro do próprio campo harmônico. Qualquer grau diatônico pode ser tratado, por um instante, como uma pequena tônica — e receber o seu próprio dominante, chamado dominante secundário (ou individual). Em Dó maior, o dominante de Dm7 (II grau) é A7; escrevemos V7/II, lido como "quinto grau do segundo".

Assim surgem V7/II (A7), V7/III (B7), V7/IV (C7), V7/V (D7) e V7/VI (E7). Repare que esses acordes trazem notas de fora do campo (o Dó sustenido de A7, por exemplo), e é justamente esse cromatismo que dá cor e direção à progressão sem abandonar a tonalidade.

Há uma exceção importante: o VII grau, m7(b5), não recebe dominante secundário. Como sua quinta é diminuta, ele não consegue soar como tônica momentânea — falta-lhe a estabilidade da quinta justa que toda resolução pressupõe. Na análise, um dominante apontando para o VII grau costuma indicar outra função (frequentemente um dominante do III ou um empréstimo).

V7/II preparando o IIm7

I7M
V7/II
IIm7
V7
I7M

A7 empurra o ouvido para Dm7, que por sua vez arma a cadência final V7 → I7M. Estrutura onipresente na bossa nova.

V7/VI resolvendo no relativo menor

I7M
V7/VI
VIm7

E7 introduz o Sol sustenido, sensível de Lá, e conduz ao VI grau.

V7/IV: a tônica que vira dominante

I7M
V7/IV
IV7M

Basta acrescentar a sétima menor (Sib) ao acorde de tônica para transformá-lo em dominante do IV grau.

Como identificar dominantes na análise

Diante de uma cifra X7, pergunte: para onde a fundamental caminha? Se o próximo acorde está uma quarta justa acima, o X7 é dominante (primário se o alvo é o I, secundário se é outro grau). Se não resolve onde "deveria", pode ser um dominante sem resolução — recurso comum no jazz — ou pertencer a outra família, como os acordes de empréstimo que veremos adiante.

Um bom hábito de estudo: ao cifrar uma música, marque com setas cada dominante e seu alvo. O desenho das setas revela a espinha dorsal da harmonia e mostra onde o compositor criou expectativa e onde a frustrou de propósito.

Como praticar

Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.

  1. 1

    Escreva e toque, em C, o dominante primário (G7) e depois cada secundário — V7/II, V7/III, V7/IV, V7/V, V7/VI — resolvendo em seu grau-alvo.

    I7M
    V7/II
    IIm7
  2. 2

    Transforme a tônica em dominante do IV grau só acrescentando a 7ª menor: toque Cmaj7, depois C7 resolvendo em Fmaj7.

    I7M
    V7/IV
    IV7M
  3. 3

    Ao cifrar uma música, marque com setas cada acorde X7 e seu alvo. O desenho das setas revela a espinha dorsal da harmonia.

Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →