Funções harmônicas
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Capítulo 07 de 24

Funções harmônicas

Todo acorde diatônico cumpre um de três papéis — tônica, subdominante ou dominante. Entender quem substitui quem é o que transforma sete acordes em infinitas progressões.

Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.

Tônica, subdominante e dominante

A harmonia funcional organiza os acordes por papel, não por nome. A função tônica é o repouso, o chão da tonalidade; a subdominante é o afastamento, o passo para fora de casa; a dominante é a tensão máxima, que exige retorno. Toda progressão tonal é uma coreografia entre esses três estados — repouso, movimento, tensão, repouso.

No campo maior, cada função tem um representante principal e substitutos que compartilham notas com ele. Função tônica: Imaj7, com IIIm7 e VIm7 como substitutos (Em7 e Am7 dividem três notas com Cmaj7 cada um). Função subdominante: IVmaj7, substituído pelo IIm7 (Fmaj7 e Dm7 dividem três notas). Função dominante: V7, substituído pelo VIIm7(b5) — Bm7(b5) é literalmente um G7(9) sem fundamental, trítono incluído.

A consequência prática: em qualquer progressão, um acorde pode ser trocado por outro da mesma função sem quebrar a lógica. É o mecanismo por trás do rearmonizar — trocar Cmaj7 por Am7, Fmaj7 por Dm7, G7 por Bm7(b5) — e a razão de tantas músicas diferentes soarem aparentadas.

Tônica e seus substitutos

Imaj7
IIIm7
VIm7

Três acordes, uma função. O III é a tônica mais tensa e discreta; o VI, a mais melancólica.

Subdominante e seu substituto

IVmaj7
IIm7

IV e II compartilham três notas e o mesmo papel de afastamento. No jazz, o II preparando o V praticamente aposentou o IV nessa função.

Mesma música, funções trocadas

I
IV
V7
I
VIm7
IIm7
V7
I

A segunda metade repete a lógica da primeira substituindo I por VI e IV por II. O esqueleto funcional é idêntico.

O trítono como motor da dominante

O que faz o V7 ser tão magnético é o trítono entre sua 3ª e sua 7ª: em G7, o B e o F. Essas duas notas estão a meio tom das notas-alvo do acorde de tônica — B sobe para C, F desce para E — e o ouvido antecipa esse desfecho antes de ele acontecer. Sem trítono não há função dominante de verdade: por isso Em7 (V natural do tom menor) resolve tão frouxo, e por isso o VIIm7(b5) e o VII° funcionam como dominantes: eles carregam o mesmo trítono.

Esse raciocínio também explica o dominante alterado: acrescentar b9, #9 ou b13 ao V7 não muda o trítono — só adiciona mais notas a meio tom dos alvos, multiplicando os fios de atração. Quanto mais alterado o dominante, mais forte o imã, e mais satisfatória a resolução.

Dominante natural × alterado

V7
Imaj7
V7(b9)
Imaj7

O b9 (Ab) fica a meio tom do G e da 5ª do alvo — mais um fio de atração puxando para casa.

VII como dominante disfarçado

VIIm7(b5)
Imaj7

Bm7(b5) contém o trítono B-F de G7. Sem a fundamental G, a função dominante permanece intacta.

Funções no modo menor e cores emprestadas

No tom menor as funções são as mesmas, com elenco próprio. Tônica: Im7 (e suas variantes Im6, Im(Maj7)), com o bIIImaj7 como substituto relativo. Subdominante: IVm7, substituído pelo IIm7(b5) — a dupla IIm7(b5)-V7 é o II-V padrão do modo menor. Dominante: V7 vindo da harmônica, com o VII° como substituto direto. O bVImaj7 transita entre subdominante e tônica dependendo do contexto.

E os modos conversam: acordes do campo menor visitam o tom maior o tempo todo. A subdominante menor (Fm7 ou Fm6 dentro de C maior) é o exemplo mais amado da bossa nova — o IV maior escurecendo antes de voltar para casa. Do mesmo empréstimo vêm o bVII7 e o bVImaj7 em tons maiores. A regra de ouro: identifique a função primeiro; a origem modal do acorde é o tempero, não o prato.

II-V-I menor

IIm7(b5)
V7
Im7

O II-V do modo menor: meio-diminuto preparando o dominante da harmônica. Compare com o II-V maior e note o peso extra.

Subdominante menor em tom maior

Imaj7
IVmaj7
IVm6
Imaj7

O IV escurece de maior para menor antes de resolver — o Ab do Fm6 desce cromático para o G. Puro Tom Jobim.

Como praticar

Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.

  1. 1

    Pegue uma música simples e reescreva-a trocando cada acorde por outro da mesma função (I↔VI↔III, IV↔II). Toque e confira se a lógica se mantém.

    I7M
    VIm7
    IIm7
    V7
  2. 2

    Toque um V7 resolvendo no I e depois no VIm (deceptiva); sinta a tensão se desfazer em endereços diferentes.

    V7
    I
    V7
    VIm7
  3. 3

    Ache a subdominante menor (Fm/Fm6) em C maior e conduza o Láb para o Sol da tônica — o coração expressivo da função.

    IV7M
    IVm6
    I7M

Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →