Condução de vozes e cadências
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Capítulo 08 de 24

Condução de vozes e cadências

Acordes bons viram música quando as vozes internas caminham bem entre eles. Aqui entram os princípios de condução e as cadências — as fórmulas de pontuação da harmonia.

Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.

Princípios de condução de vozes

Condução de vozes é a arte de ir de um acorde ao outro movendo cada nota o mínimo necessário. Três princípios resolvem a maior parte dos casos: primeiro, notas comuns entre dois acordes ficam paradas; segundo, as demais vozes caminham por graus conjuntos (meio tom ou um tom), de preferência por movimento contrário ou oblíquo ao baixo; terceiro, evita-se que todas as vozes saltem na mesma direção — o chamado movimento direto, que faz o acompanhamento soar como blocos empurrados em vez de linhas que cantam.

No violão isso se traduz em escolher a próxima forma de acorde pelo caminho das notas, não pela forma mais conhecida. Entre Dm7 e G7, por exemplo, o D e o F podem ficar parados enquanto C desce para B e A desce para... continuar no acorde. Quando cada dedo se move pouco, o acompanhamento ganha aquela fluidez de quem fala em frases, não em gritos.

Um exercício valioso: toque uma progressão movendo apenas as guide tones (3ª e 7ª de cada acorde) sobre o baixo. No II-V-I, a 7ª do IIm7 desce meio tom e vira a 3ª do V7; a 7ª do V7 desce meio tom e vira a 3ª do Imaj7. Essa engrenagem de meios-tons é o coração da harmonia do jazz.

Guide tones no II-V-I

IIm7
V7
Imaj7

Acompanhe as vozes internas: C (7ª de Dm7) desce para B (3ª de G7); F (7ª de G7) desce para E (3ª de Cmaj7). Duas engrenagens de meio tom movendo tudo.

Notas comuns como âncora

Imaj7
VIm7
IVmaj7

Cada par de acordes vizinhos compartilha três notas. Sustente as comuns e mova só o que precisa — o legato aparece sozinho.

Cadência dominante e a II-V-I completa

Cadência é a fórmula harmônica que pontua o discurso musical — a vírgula, o ponto final, a reticência. A mais forte é a cadência dominante (também chamada autêntica ou perfeita): V7 resolvendo no I. O trítono se desfaz, o baixo salta uma 4ª justa para cima (ou 5ª para baixo), e o ouvido entende: chegamos.

A versão completa e onipresente no jazz e na bossa é a II-V-I: a subdominante (IIm7) prepara, a dominante (V7) tensiona, a tônica (Imaj7) resolve. São os três estados funcionais em três acordes, com o baixo descendo em quintas — o movimento de fundamental mais forte que existe. Dominar a II-V-I nos doze tons, com boa condução de vozes, é provavelmente o investimento de estudo mais rentável para quem acompanha e improvisa.

II-V-I em C

IIm7
V7
Imaj7

Preparação, tensão, repouso — a frase-modelo da harmonia funcional.

II-V-I em F

IIm7
V7
Imaj7

A mesma engrenagem transposta. Treine reconhecer o padrão pelo movimento, não pelos nomes dos acordes.

II-V-I menor

IIm7(b5)
V7(b9)
Im7

A versão do modo menor: meio-diminuto no II e b9 no V, resolvendo na tônica menor.

Cadência deceptiva e cadência subdominante

Nem toda dominante cumpre a promessa. Na cadência deceptiva (ou de engano), o V7 resolve no VIm7 em vez do I: a tensão se desfaz, mas em outro endereço — o substituto de tônica. É o recurso favorito para esticar uma música que parecia acabar, ou para dar à letra um desfecho agridoce. O ouvinte espera C e recebe Am: mesma família, outra emoção.

Já a cadência subdominante (dita plagal) dispensa o dominante: IV indo direto ao I. Sem trítono, a resolução é mais suave, mais solene — é o amém dos hinos, mas também o respiro de incontáveis finais de bossa, muitas vezes na versão escurecida IVm6-I. Reconhecer qual cadência está em jogo diz muito sobre o caráter de cada trecho: a dominante afirma, a deceptiva adia, a plagal abençoa.

Cadência deceptiva

IIm7
V7
VIm7

Tudo apontava para Cmaj7, mas o baixo sobe um tom e cai no relativo menor. A tensão resolve; a história continua.

Cadência subdominante

IVmaj7
Imaj7

Resolução sem trítono: suave, aberta, conclusiva sem drama.

Plagal escurecida

IVmaj7
IVm6
Imaj7

O IV menor de empréstimo entre a subdominante e a tônica — o final de bossa por excelência.

Como praticar

Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.

  1. 1

    Toque um II-V-I movendo só as guide tones sobre o baixo, e leve o exercício pelos doze tons em quintas.

    IIm7
    V7
    I7M
  2. 2

    Toque a mesma progressão duas vezes: uma com movimento direto (tudo subindo junto) e outra com movimento contrário e notas comuns. Compare a fluidez.

  3. 3

    Pratique as três cadências (dominante, subdominante/plagal e deceptiva) em C, depois em G, F e D.

    IV7M
    V7
    I7M

Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →