Capítulo 10 de 24
A cadência II–V
O par IIm7 → V7 é a unidade de vocabulário mais frequente do jazz e da bossa: aprenda as versões maior, menor, secundária e estendida.
Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.
II–V–I: a fórmula clássica
Antes de chegar ao dominante, o jazz e a bossa quase sempre passam pelo II grau. A sequência IIm7 → V7 → I7M cria um caminho de fundamentais descendo em quintas (Ré → Sol → Dó, em Dó maior), o movimento de baixo mais forte que existe na harmonia tonal.
Funcionalmente, o IIm7 pertence à família da subdominante: ele afasta o ouvido da tônica e prepara o terreno para a tensão do V7. O resultado é um arco completo — repouso relativo, tensão, resolução — condensado em três acordes. É por isso que o II–V–I funciona como "célula" de estudo: dominando-o nos doze tons, você reconhece de ouvido a maior parte dos standards.
II–V–I em C maior
Fundamentais descendo em quintas: Ré, Sol, Dó. Memorize a sonoridade — ela aparece em quase todo standard.
II–V secundários e cadeias estendidas
Assim como os dominantes, os II–V também podem ser secundários: qualquer grau pode ser precedido pelo seu próprio par II–V. Antes de Dm7, por exemplo, cabe Em7 → A7 (o II–V do II grau). Note que Em7 é diatônico em Dó maior (III grau), então ele acumula duas leituras — IIIm7 do tom e IIm7 relativo ao alvo Ré.
Encadeando pares, surge a II–V estendida: uma corrente em que cada resolução vira o início da próxima preparação. É um dos recursos favoritos dos compositores de bossa para percorrer longos trechos com direção clara e baixo em quintas descendentes.
Na análise, escreva o par apontando para o alvo (por exemplo, "IIm7/II — V7/II") ou simplesmente marque um colchete ligando o II ao seu V: o importante é enxergar o par como uma unidade, não como dois acordes soltos.
Cadeia II–V estendida até a tônica
Em7 → A7 prepara Dm7; Dm7 → G7 prepara Cmaj7. Duas células II–V emendadas, baixo descendo em quintas do início ao fim.
II–V secundário apontando para o V
Am7 → D7 mira o quinto grau; o D7 é desviado para Dm7, suavizando a chegada antes da cadência final.
II–V menor: o papel do m7(b5)
Quando o alvo é um acorde menor, o II grau muda de qualidade: em vez de m7, usamos m7(b5), também chamado meio-diminuto. Em Dó menor, o II–V–I é Dm7(b5) → G7 → Cm7. A quinta diminuta do Dm7(b5) é o Láb — a sexta menor do tom — e é ela que anuncia desde o primeiro acorde que a resolução será menor.
Na prática de leitura, sempre que encontrar um m7(b5) seguido de um dominante uma quarta abaixo, espere uma resolução menor. Sobre o V7 desse contexto, é comum a tensão b9 (G7(b9) em Dó menor), que reforça o clima escuro da cadência.
II–V–I em C menor
O Láb do Dm7(b5) já anuncia o modo menor. Compare com a versão maior e note a diferença de cor.
V7(b9) escurecendo a cadência menor
A nona menor (Láb sobre G7) é a tensão característica do dominante que resolve em acorde menor.
Como praticar
Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.
- 1
Toque o II-V-I nos doze tons, sempre com as fundamentais descendo em quintas. Comece em C.
IIm7V7I7M - 2
Encadeie duas células II-V até a tônica, com o baixo descendo em quintas do início ao fim.
IIIm7V7/IIIIm7V7I7M - 3
Faça o II-V menor (com m7b5 no II e b9 no V) e depois inverta para a versão maior; sinta a diferença de cor.
IIm7(b5)V7(b9)Im7
Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →