Capítulo 18 de 24
Empréstimo modal
Acordes de empréstimo modal (AEM): trazer para o tom maior acordes dos modos homônimos, do IVm eólio ao IV7 dórico e ao I7 blues.
Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.
A fusão dos campos homônimos
Sobre uma mesma tônica podem ser construídos sete modos — Dó jônio, Dó dórico, Dó frígio, e assim por diante. Cada um gera seu próprio campo harmônico. O empréstimo modal consiste em, estando num tom maior, tomar emprestado um acorde do campo de um desses homônimos, sem abandonar o centro tonal.
A subdominante menor, vista antes, é o caso mais famoso: Fm7, Abmaj7 e Bb7 vêm do campo de Dó eólio (menor natural). Mas o cardápio é maior — cada modo homônimo oferece cores próprias, e o compositor as usa como tempero pontual, voltando em seguida ao campo diatônico.
Na análise, cifre o acorde emprestado com o grau alterado que ele representa (IVm7, bII7M, IV7...) e, se quiser precisão, anote o modo de origem entre parênteses.
Catálogo por modo de origem
Do eólio (menor natural) vêm os empréstimos mais suaves: IVm7, bVI7M e bVII7 — a família da subdominante menor. Do dórico vem o IV7 (F7 em Dó maior), um dominante que não resolve em quintas e tem forte sabor de blues. Do frígio vem o bII7M (Dbmaj7), acorde de repouso escuro usado em finais. Do lídio vem o #IVm7(b5) (F#m7(b5)), comum como acorde de passagem ou início de frases descendentes.
Há ainda o empréstimo do mixolídio sobre a própria tônica: tratar o I como I7 (C7 em vez de Cmaj7). É a "tônica blues" — o acorde de repouso que carrega uma sétima menor sem pedir resolução, base de todo o vocabulário do blues e de boa parte do samba-jazz.
IVm7 emprestado do eólio
O Láb do Fm7 é a cor eólia visitando o tom maior — o empréstimo modal mais frequente do songbook.
bVII7 emprestado (backdoor)
Bb7 vem do campo de Dó eólio e volta à tônica sem cadência dominante tradicional.
IV7 dórico com sabor de blues
F7 traz o Mib (terça menor do tom) — a blue note em forma de acorde.
bII7M frígio encerrando a frase
Dbmaj7 desliza meio tom acima da tônica e volta — repouso escuro, sem trítono.
O blues como caso extremo
O blues leva o empréstimo modal ao limite: os três acordes estruturais — I7, IV7 e V7 — são todos dominantes, e apenas o V7 se comporta como dominante funcional. O I7 é a tônica mixolídia; o IV7 é o empréstimo dórico. O resultado é uma harmonia em que a sétima menor deixa de ser tensão e vira cor permanente.
Entender o blues por essa lente ajuda a analisar muita música brasileira: sempre que um X7 aparece como ponto de chegada (e não de partida para uma resolução), pense em tônica ou subdominante blues, não em dominante mal resolvido.
Os três pilares do blues em C
Três dominantes, mas só o G7 exerce função dominante de fato. C7 e F7 são cores estáveis do idioma blues.
Como praticar
Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.
- 1
Toque I-IVm7-I e depois I-bVII7-I; ouça duas cores emprestadas do campo menor visitando o tom maior.
I7MIVm7I7M - 2
Transforme a tônica em I7 (tônica blues) e toque um blues de 12 compassos com I7-IV7-V7 em C.
I7IV7V7 - 3
Ache num songbook um acorde de fora do campo diatônico e identifique de qual modo homônimo ele foi emprestado.
Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →