Capítulo 20 de 24
Movimentos de fundamentais
Por que umas progressões soam firmes e outras soam de passagem? A resposta está no intervalo entre as fundamentais de dois acordes seguidos — a terminologia de Schoenberg que Almada retoma.
Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.
As três direções que empurram a harmonia
Segundo Arnold Schoenberg, o que dá direção a uma progressão é o intervalo entre as fundamentais de dois acordes consecutivos. Três movimentos fazem a harmonia “seguir em frente”, em ordem decrescente de força: a quarta justa ascendente (4↑), a segunda (2, em qualquer direção) e a terça descendente (3↓).
O mais forte de todos é a 4ª ascendente — não por acaso, é o movimento da cadência V-I e do encadeamento II-V. Sua força vem da própria acústica: a 4ª justa ascendente aparece entre o 3º e o 4º harmônicos da série. Nele, sempre há uma nota comum entre os dois acordes, o que garante ligação; e quase sempre há mudança de função. Encadear vários 4↑ em sequência é descer o baixo em quintas — o esqueleto de boa parte da música tonal.
A 2ª provoca a mudança mais brusca: como nenhuma das três notas do primeiro acorde reaparece no segundo, o contraste é total (é o gesto do IV-V, e da cadência de engano V-VI). Já a 3ª descendente é a mais suave — mantém duas notas comuns e, na maioria das vezes, nem muda de função (I-VI, IV-II).
Cadeia de 4ª ascendente (o ciclo das quintas)
Cada fundamental sobe uma 4ª justa: Mi-Lá-Ré-Sol-Dó. É o movimento mais forte, e por isso a espinha dorsal de tantas progressões.
2ª ascendente: contraste do IV-V
De Fá para Sol há uma 2ª — nenhuma nota comum entre IV e V. O salto de cor prepara a chegada.
3ª descendente: a mais suave
Dó-Lá-Fá desce em terças; cada par compartilha duas notas. A harmonia flui sem sobressaltos, quase sem mudar de função.
Os movimentos fracos e o contrapeso
Os movimentos opostos — 4ª descendente, e as inversões dos fortes — são “estruturalmente menos importantes”: representam uma espécie de contramão do fluxo, uma suspensão do empuxo. Não são ruins; são o contraste necessário, o respiro entre os gestos fortes. Uma música só com 4↑ soaria mecânica.
Schoenberg observa ainda que um movimento de 2ª pode ser lido como uma “contração” de dois movimentos de 4ª ascendente: no lugar de V-I-IV, ouve-se V-IV direto. Guardar isso ajuda na hora de rearmonizar: onde há um salto de 2ª, muitas vezes cabe interpolar o acorde intermediário do ciclo de quintas, criando um II-V onde antes havia um passo seco.
Na prática do acompanhamento, vale treinar o ouvido para sentir a diferença: toque a mesma melodia primeiro com fundamentais saltando em 4ª e depois em 2ª, e perceba como a primeira “anda” e a segunda “vira a esquina”.
4ª descendente: um passo de contramão
De Dó para Sol o baixo desce uma 4ª (sobe uma 5ª). É o movimento oposto ao V-I; sozinho, soa como afastamento antes do retorno.
A 2ª como contração de dois 4↑
O trecho completo desce em quintas; no fim, Dm7 indo direto a Cmaj7 (2ª descendente) resume o movimento sem o G7 no meio.
Como praticar
Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.
- 1
Toque a cadeia de 4ª ascendente III-VI-II-V-I e sinta o baixo descer em quintas — o movimento mais forte da harmonia tonal.
IIIm7VIm7IIm7V7I7M - 2
Toque a mesma frase três vezes: com o baixo saltando em 4ª (IV-V-I), em 3ª (I-VI-IV) e em 4ª descendente (I-V-I). Compare qual anda e qual vira a esquina.
IV7MV7I7M - 3
Ache um salto de 2ª numa música sua e interpole o acorde do ciclo de quintas que falta, transformando o passo seco num II-V.
IV7MI7MIIm7V7I7M
Fonte: Baseado em Carlos Almada, «Harmonia Funcional», Editora Unicamp, 2ª ed., 2011 (ISBN 978-85-268-0969-7). Capítulo sobre movimentos de fundamentais (a terminologia de Schoenberg). Ver todas as fontes →