Análise melódica: notas de aproximação
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Capítulo 21 de 24

Análise melódica: notas de aproximação

Nem toda nota da melodia pertence ao acorde. Distinguir nota do acorde, tensão e inflexão — as notas de aproximação de Almada — é o que permite harmonizar uma linha sem tropeçar nas notas de passagem.

Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.

Três papéis para uma nota da melodia

Diante de uma melodia sobre um acorde, cada nota faz um de três papéis. Ela pode ser nota do acorde (fundamental, 3ª, 5ª ou 7ª — as notas do arpejo); pode ser tensão (9, 11, 13 — notas da escala do acorde que não estão no arpejo, mas soam estáveis, incorporadas ao ambiente harmônico); ou pode ser inflexão (também chamada nota de aproximação ou nota estranha) — uma nota de passagem, transitória, que não pertence à harmonia e só existe para ligar duas notas estruturais.

O critério que separa tensão de inflexão é o comportamento: a tensão “salta” ou é seguida de pausa — o ouvido a percebe com o mesmo status de uma nota do acorde. Já a inflexão sempre resolve por grau conjunto numa nota estrutural: ela caminha meio tom ou um tom até a nota vizinha. Se a nota se comporta como passagem, é inflexão, por mais que também pertença à escala.

Isso muda tudo na hora de harmonizar: só as notas estruturais (do acorde e tensões) pedem harmonia; as inflexões passam por cima do acorde sem exigir nada dele. Analisar a melodia antes de cifrar é o que evita “acompanhar” uma nota de passagem como se fosse fundamental.

Nota do acorde × tensão sobre o mesmo acorde

Sobre Dm7, o Ré e o Fá são notas do acorde; o Mi é tensão (9ª). Toque Dm9 e ouça o Mi incorporado ao ambiente — estável, não de passagem.

O contexto de uma inflexão

I7M
V7
I7M

Numa melodia que desça Mi-Ré-Dó sobre Cmaj7, o Ré é inflexão (nota de passagem entre Mi e Dó): pertence à escala, mas apenas liga duas notas do acorde. Não pede harmonia própria.

O catálogo das inflexões

Almada organiza as inflexões por como chegam e como saem. A nota de passagem liga por grau conjunto duas notas estruturais distantes por uma 3ª, em tempo fraco. A bordadura sai de uma nota estrutural e volta para ela mesma (a nota vizinha, acima ou abaixo). A apogiatura cai em tempo forte, sem preparação, e resolve por grau conjunto — é a inflexão mais expressiva, aquela que “dói” antes de resolver.

A escapada é como a apogiatura, mas em tempo fraco; a suspensão é uma nota estrutural que se prende sobre o acorde seguinte, virando dissonância, e resolve descendo; a antecipação, ao contrário, é a chegada adiantada da próxima nota estrutural — recurso rítmico típico do samba e da bossa, onde a melodia “chega antes” do acorde.

Um caso especial é o cromatismo: trechos da escala cromática podem ligar notas estruturais, desde que a última resolva numa nota do acorde. É uma das marcas idiomáticas do choro — a melodia serpenteando por semitons entre os apoios harmônicos. Reconhecer esses grupos como inflexão, e não como mudança de harmonia, é o que mantém a análise limpa.

Bordadura e apogiatura precisam de resolução

IV7M
I7M

Sobre Cmaj7, um Fá (4ª) em tempo forte é apogiatura: bate na 3ª (Mi) e resolve nela meio tom abaixo. O acorde não muda — a tensão é melódica e passageira.

Antecipação: a melodia chega antes

IIm7
V7
I7M

Se a nota Dó do Cmaj7 for tocada ainda sobre o G7 (síncope), é antecipação — recurso rítmico, não harmônico. O ouvido a entende como adiantamento, não como tensão do dominante.

Como praticar

Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.

  1. 1

    Sobre um Dm7 parado, cante a fundamental e a 3ª (notas do acorde), depois a 9ª (tensão) e depois o Fá# subindo para o Sol (inflexão). Classifique cada uma pelo comportamento.

  2. 2

    Pegue a melodia de uma música simples e marque cada nota como do acorde, tensão ou inflexão. Só as duas primeiras pedem harmonia.

  3. 3

    Toque uma apogiatura: sobre Cmaj7, ataque o Fá no tempo forte e resolva no Mi. O acorde não muda — a tensão é melódica e passageira.

Fonte: Baseado em Carlos Almada, «Harmonia Funcional», Editora Unicamp, 2ª ed., 2011 (ISBN 978-85-268-0969-7). Capítulo sobre análise melódica e notas de aproximação (inflexões). Ver todas as fontes →