Capítulo 01 de 24
Intervalos
A distância entre duas notas é a menor unidade da harmonia. Classificar intervalos com segurança é o que permite montar qualquer acorde ou escala sem decorar formas.
Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.
O que é um intervalo
Intervalo é a distância entre duas notas, medida em tons e semitons. No violão e na guitarra a régua é visual: cada casa vale um semitom, então duas casas na mesma corda equivalem a um tom. Quando as notas soam uma depois da outra, o intervalo é melódico; quando soam juntas, é harmônico — e é o intervalo harmônico que dá a cor dos acordes.
A nomenclatura tem duas partes: o número (2ª, 3ª, 4ª...) vem de contar os nomes de notas do ponto de partida ao de chegada, incluindo os dois extremos; a qualidade (maior, menor, justa, aumentada, diminuta) vem da quantidade exata de semitons. De C a E contamos C, D, E — três nomes, logo uma 3ª. Como há 4 semitons entre elas, é uma 3ª maior. De C a Eb há os mesmos três nomes, mas 3 semitons: 3ª menor.
As qualidades se organizam em duas famílias. As 2ª, 3ª, 6ª e 7ª podem ser maiores ou menores (a menor tem um semitom a menos que a maior). Já a 4ª, a 5ª e a 8ª são chamadas de justas; quando uma justa cresce um semitom vira aumentada, e quando encolhe um semitom vira diminuta. O mesmo vale para maiores (que aumentadas crescem) e menores (que diminutas encolhem).
3ª maior × 3ª menor
A única diferença entre C e Cm é a terça: E (3ª maior, 4 semitons) contra Eb (3ª menor, 3 semitons). Toque os dois e compare o caráter — é o intervalo mais decisivo da harmonia tonal.
5ª justa × 5ª aumentada
C traz a 5ª justa (G, 7 semitons); C+ sobe essa nota para G# (8 semitons), a 5ª aumentada. Note como o acorde perde a estabilidade e pede resolução.
7ª maior × 7ª menor
Cmaj7 tem a 7ª maior (B, 11 semitons), suave e estável; C7 tem a 7ª menor (Bb, 10 semitons), que cria tensão de dominante. Um único semitom muda a função do acorde inteiro.
Enarmonia: nomes diferentes, mesmo som
No braço do instrumento, F# e Gb são a mesma casa. Notas (e intervalos) com grafias diferentes e o mesmo som são chamados enarmônicos. O exemplo clássico é a distância de 6 semitons: contando C-D-E-F# são quatro nomes, logo 4ª aumentada; contando C-Db-Eb-F-Gb são cinco nomes, logo 5ª diminuta. O som é idêntico — esse intervalo é o famoso trítono.
A grafia correta não é preciosismo: ela indica de onde o intervalo vem e para onde tende a resolver. Dentro de um G7, o trítono entre B e F se resolve abrindo para C e E (o acorde de C); grafado como B e E#, a mesma sonoridade apontaria para outra direção. Ao analisar cifras, escolha o nome que respeita a escala do momento.
O trítono dentro do V7
G7 contém B e F — um trítono. Ao resolver em C, o B sobe meio tom para C e o F desce meio tom para E. Toque a sequência e ouça o trítono se desfazer.
Trítono empilhado
O acorde diminuto é feito só de 3ªs menores e contém dois trítonos (C-Gb e Eb-A na grafia prática). Por isso soa tão instável e serve de passagem entre acordes.
Consonância, dissonância e intervalos compostos
Tradicionalmente, os intervalos justos (4ª, 5ª, 8ª) e as 3ªs e 6ªs são tratados como consonantes — soam em repouso. As 2ªs, as 7ªs e o trítono são dissonantes: geram atrito que pede movimento. Na música que nos interessa (bossa, jazz), a dissonância não é defeito: é combustível. O trítono, em especial, é o motor do acorde dominante — a diferença entre um som que fica parado e um som que empurra a música para frente.
Quando um intervalo ultrapassa a oitava, ele vira composto: a 2ª uma oitava acima é a 9ª, a 4ª vira 11ª e a 6ª vira 13ª. É assim que as extensões dos acordes recebem seus nomes — a 9ª de um C9 é a nota D tocada acima da estrutura básica do acorde. A qualidade se mantém: 9ª maior corresponde à 2ª maior, 13ª maior à 6ª maior, e assim por diante.
A 9ª como 2ª composta
Sobre a base de C, o C9 acrescenta a 7ª menor e o D uma oitava acima — a 9ª. A mesma nota D, colada no C dentro da oitava, seria uma 2ª maior áspera; posta lá em cima, vira cor.
A 13ª como 6ª composta
C13 empilha a 13ª (A) sobre o dominante. Compare com o C7 puro: a estrutura de tensão é a mesma, mas o acorde fica mais largo e sofisticado.
Como praticar
Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.
- 1
Digite cada intervalo simples (2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e 7ª) partindo da mesma nota, com a tônica na 3ª, 4ª, 5ª e 6ª cordas. Toque e cante cada um até reconhecê-lo de ouvido.
- 2
Toque uma escala maior que você já conhece em terças (Dó-Mi, Ré-Fá…), depois em quartas e em oitavas. É técnica e treino de ouvido ao mesmo tempo.
- 3
Isole o trítono (4ª aumentada / 5ª diminuta) e resolva-o abrindo e fechando meio tom — como acontece dentro do G7 indo para C.
V7I
Fonte: Baseado na apostila «Harmonia» (HMP) de Pollaco, © do autor. Texto, exemplos e rotinas de prática reescritos para este caderno. Ver todas as fontes →