Capítulo 22 de 24
Harmonia aplicada: samba e choro
O samba e o choro têm sua própria sintaxe harmônica — fórmulas recorrentes que, de tão usadas, viraram a identidade dos gêneros. É a parte de harmonia aplicada do livro de Almada, resumida em progressões tocáveis.
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A gramática do samba
Analisando dezenas de sambas, Almada mostra que a harmonia do gênero usa uma parcela pequena do total de acordes — e algumas fórmulas se repetem em todas as épocas, virando “fórmulas harmônicas” que caracterizam o samba tanto quanto o ritmo. A primeira e mais onipresente é I — V7/II — IIm7 — V7 — I: a tônica, o dominante secundário do II, e a cadência II-V-I. É a frase que abre e sustenta a maioria dos sambas.
A segunda fórmula típica polariza a subdominante: IV — V°/V — I(6/4) — V7/II — IIm7 — V7 — I, com um diminuto de passagem e o baixo caminhando cromaticamente. Aparece muito em refrões e introduções, pelo contraste que a área subdominante traz depois de tanto tempo na tônica.
A forma do samba costuma ser bipartite (parte A estrófica, parte B refrão), e o contraste entre as partes quase sempre se dá por uma modulação seccional — em geral para a região relativa (menor↔maior) ou paralela. A polarização do VI grau (preparado por seu dominante) é o recurso mais comum para “fugir” da tônica sem sair de vez do tom.
Primeira fórmula do samba
A frase-modelo do samba: tônica, dominante secundário do II, e a cadência II-V-I. Presente em praticamente todo o repertório.
Segunda fórmula: a subdominante polarizada
O diminuto liga o IV ao I com baixo cromático (Fá-Fá#-Sol), e a frase segue para a cadência. Cara de refrão de samba.
O choro e a herança do rondó
O choro herdou da polca e das danças europeias a forma rondó: três partes que se alternam no esquema A-A-B-B-A-C-C-A, com as partes B e C em regiões vizinhas da tônica (a dominante, a subdominante ou a relativa). Essa alternância de tonalidades é tão constante que virou, ela também, fator de caracterização do gênero.
Harmonicamente, o choro é mais cromático e denso que o samba: usa muito os dominantes secundários e, sobretudo, os dominantes consecutivos — cadeias de acordes de 7ª que se preparam uns aos outros descendo em quintas, sustentando linhas cromáticas na melodia. Os diminutos de passagem, com função cromática (ligando o III ao II, por exemplo), são outra marca registrada.
Vale notar o que o choro quase não usa: o SubV e a subdominante menor, comuns na bossa, soam “fora do lugar” no idioma tradicional do choro. Reconhecer essas ausências é tão útil quanto reconhecer as presenças — é o que mantém a rearmonização fiel ao gênero.
Dominantes consecutivos (cadeia do choro)
Uma corrida de dominantes descendo em quintas (Mi-Lá-Ré-Sol-Dó): cada X7 prepara o seguinte, sustentando o cromatismo melódico típico do choro.
Diminuto de função cromática
O Ebdim7 liga cromaticamente o III ao II (Mi-Mib-Ré no baixo) — diminuto de passagem descendente, onipresente no choro.
Como praticar
Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.
- 1
Toque a primeira fórmula do samba nos doze tons: I - V7/II - IIm7 - V7 - I, sempre com o dominante secundário preparando o II.
I7MV7/IIIIm7V7I7M - 2
Toque a segunda fórmula com o diminuto de passagem e o baixo cromático Fá-Fá#-Sol, sentindo a área subdominante contrastar com a tônica.
IV7MV°/VI(6/4)V7/IIIIm7V7I7M - 3
Toque a cadeia de dominantes consecutivos do choro (I - V7/VI - V7/II - V7/V - V7 - I) e ouça o cromatismo que ela sustenta na melodia.
I7MV7/VIV7/IIV7/VV7I7M
Fonte: Baseado em Carlos Almada, «Harmonia Funcional», Editora Unicamp, 2ª ed., 2011 (ISBN 978-85-268-0969-7). Parte III (Harmonia Aplicada): a gramática harmônica do samba e do choro. Ver todas as fontes →