Série harmônica e acústica
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Capítulo 23 de 24

Série harmônica e acústica

Antes de qualquer regra, a harmonia começa na física do som. Este capítulo mostra como a série harmônica — os sons que vêm de brinde dentro de uma única nota — já traz a tríade maior pronta, faz nascer a relação tônica-dominante e até a 7ª do dominante, e por que o temperamento igual precisa "desafinar" um pouco essa natureza para viabilizar toda a música ocidental.

Clique em qualquer cifra para ouvir o acorde.

A série harmônica: uma nota já é um acorde

Nenhuma nota soa sozinha. Quando você toca um Dó grave no violão, a corda não vibra só na frequência daquele Dó: ela vibra ao mesmo tempo em várias frequências mais agudas, encaixadas em proporções exatas (1, 2, 3, 4, 5...). Essas frequências que vêm de brinde chamam-se harmônicos (ou parciais). A mais grave e forte — o fundamental — é a que dá o nome à nota; as de cima, quase inaudíveis uma a uma, se somam e formam o timbre. Ou seja: toda nota já é, por dentro, um pequeno acorde.

O mais bonito é que a ordem dos harmônicos é fixa e vale para qualquer fundamental. Partindo do Dó grave, eles aparecem assim: primeiro a oitava (outro Dó), depois uma 5ª justa (Sol), depois uma 4ª justa (Dó de novo), depois uma 3ª maior (Mi), depois uma 3ª menor (Sol), e daí para cima os intervalos vão encolhendo — 3ª menor, 2ª maior, 2ª menor... Quanto mais alto na série, mais colados ficam os harmônicos.

Repare no que apareceu logo no começo: Dó, Mi e Sol. Os primeiros harmônicos audíveis já desenham a tríade maior — o acorde do I grau. A tríade maior não foi inventada por ninguém; ela estava ali dentro de uma única nota grave, esperando. É por isso que o acorde maior soa tão estável e "natural": ao tocá-lo, você só torna audível o que o fundamental já carregava. Esse é o chão de toda a harmonia tonal.

A tríade maior que já vem na nota

I

Toque um Dó grave e deixe soar: escondidos no timbre estão o Sol (5ª) e o Mi (3ª maior). O acorde de Dó só faz soar em voz alta a tríade que o fundamental já contém — a base do I grau.

A mesma tríade da natureza, em três fundamentais

A série é idêntica para qualquer nota: cada fundamental gera a sua própria tríade maior. Por isso o acorde maior é universal — Dó, Sol e Fá são o mesmo fenômeno acústico apenas transposto.

Da série saem a tônica, a dominante e a subdominante

Depois da oitava, o harmônico mais forte é o terceiro: uma 5ª justa acima do fundamental. Sobre o Dó, essa nota é o Sol. E o Sol é, justamente, a dominante de Dó. Quer dizer: a nota que o fundamental projeta com mais força — logo depois de repetir a si mesmo na oitava — é a sua própria dominante. A relação tônica-dominante, que organiza praticamente toda a música tonal, não é uma regra de gramática: está escrita na acústica. Ir da tônica até essa 5ª e voltar (I - V - I) é o gesto mais primitivo da harmonia.

E a subdominante? Ela aparece quando invertemos o raciocínio. Se o Sol é a 5ª que o Dó gera, então o Dó é a 5ª que alguma nota mais grave gera — e essa nota é o Fá. Ou seja: o Fá contém o Dó na sua série do mesmo jeito que o Dó contém o Sol. Olhando a série como num espelho (para baixo, em vez de para cima), o vizinho do outro lado é a subdominante. Por isso os três pilares da tonalidade — subdominante, tônica e dominante — são simplesmente o fundamental e seus dois vizinhos de 5ª: o Fá (IV) de um lado, o Sol (V) do outro.

Falta explicar a 7ª do dominante. Basta subir a série a partir do próprio Sol. Seus primeiros harmônicos repetem a mesma história (Sol, Sol, Ré, Sol, Si...), até que o 7º harmônico traz um Fá — um Fá naturalmente meio baixo, mas Fá. Esse Fá é a 7ª menor de Sol: a série entrega, por conta própria, o acorde de Sol com 7ª, o G7. E há um bônus: o Si (5º harmônico de Sol) com esse Fá formam o trítono, aquele par de notas instável que puxa a resolução para o Dó. A 7ª do dominante, portanto, não é um tempero que alguém acrescentou por gosto — é o próximo degrau que a natureza oferece.

A relação tônica-dominante-tônica

I
V7
I

O Sol é o 3º harmônico do Dó (a 5ª justa) — a dominante já escrita na série. Sair da tônica para ela e voltar é a célula que organiza a música tonal. Aqui o V já vem com a 7ª que a própria série entregou.

A subdominante, vista no espelho

IV
I
V7
I

O Fá é o fundamental cuja 5ª é o Dó: o vizinho do outro lado da série. Os três pilares num só gesto — subdominante, tônica, dominante e o repouso final.

O dominante com 7ª resolvendo

V7
I

A 7ª menor (Fá) é o eco do 7º harmônico de Sol; com o Si, forma o trítono. Ao cair em Dó, o Si sobe meio tom para o Dó e o Fá desce meio tom para o Mi — o par instável se desfaz exatamente na tríade da natureza.

O temperamento igual: uma pequena mentira útil

Há um problema escondido em tudo isso. Os intervalos da série são puros, com razões exatas (a oitava é 2:1, a 5ª é 3:2, a 3ª maior é 5:4, o tal 7º harmônico é 7:4). Se afinássemos o instrumento por esses valores puros num tom só, as notas não serviriam para os outros tons: empilhando 5ªs puras uma sobre a outra, doze vezes, não se volta exatamente ao ponto de partida (a sobra tem até nome, coma pitagórica), e o Ré sustenido puro não bateria com o Mi bemol puro. Modular ou transpor soaria desafinado.

A solução que o Ocidente adotou é o temperamento igual: dividir a oitava em doze semitons matematicamente iguais. Isso desafina de leve quase tudo em relação à série pura. A 5ª temperada fica um tico mais estreita que a pura (quase ninguém percebe); a 3ª maior temperada fica sensivelmente mais alta; e a 7ª do dominante fica bem mais alta do que o 7º harmônico, que é bastante baixo. Trocamos um tantinho de pureza em cada intervalo pela liberdade de tocar nos doze tons, transpor uma música para caber na voz de alguém e modular para onde quisermos, tudo sem reafinar.

Para o violonista isso é concreto: os trastes são colocados segundo o temperamento igual — é por isso que a mesma forma de acorde desliza para qualquer casa e continua utilizável. Cada acorde que você toca é, no fundo, uma pequena desafinação combinada da série natural; o ouvido aceita porque a troca compensa. Guarde a imagem: a série harmônica é a bússola — ela explica por que os acordes funcionam —, e o temperamento é o mapa quadriculado sobre o qual a gente de fato caminha.

Transpor sem reafinar

I (Dó)
I (Réb)
I (Ré)

A mesma tríade maior subindo de semitom em semitom. Só o temperamento igual faz as três soarem igualmente afinadas — na série pura, cada tom exigiria a sua própria afinação.

Modular para outro tom

I7M (Dó)
VIm7 = IIm7 (Sol)
V7 (Sol)
I7M (Sol)

O Am7 serve de dobradiça (é VI de Dó e II de Sol) e o D7 revela o tom novo. Viajar assim de um tom a outro só é possível porque o temperamento nivelou todas as 5ªs e 3ªs.

Como praticar

Rotinas de estudo no braço, no espírito das seções “Como praticar” do caderno de harmonia. O ideal é levar cada uma pelos doze tons, sem pressa.

  1. 1

    Toque a corda mais grave solta e, encostando o dedo de leve sobre a 12ª, a 7ª e a 5ª casa, faça soar os harmônicos naturais — a oitava, a 5ª justa e a dupla oitava da série. Depois toque a tríade maior sobre essa mesma fundamental e reconheça que aqueles harmônicos já eram o acorde.

    I
  2. 2

    Toque IV - I - V - I sobre a mesma tônica e ouça o IV e o V como os dois vizinhos de 5ª do fundamental (um no espelho, para baixo; outro na série, para cima). Depois acrescente a 7ª ao V (o eco do 7º harmônico) e sinta o trítono puxar de volta para a tônica.

    IV
    I
    V7
    I
  3. 3

    Deslize uma mesma forma de tríade maior casa a casa (Dó, Réb, Ré...) e depois transporte para um tom distante um II-V-I que você já sabe. Note que só o temperamento igual deixa toda forma soar igualmente afinada em qualquer posição do braço.

    IIm7
    V7
    I7M

Fonte: Baseado em Carlos Almada, «Harmonia Funcional», Editora Unicamp, 2ª ed., 2011 (ISBN 978-85-268-0969-7). Tópico do capítulo: a série harmônica como origem acústica da tríade maior, das funções tônica-subdominante-dominante e da 7ª do dominante, e o temperamento igual como convenção. Ver todas as fontes →